Pegamos o trem da meia noite, eu estava cansado e sem querer me deixei embalar no balanço da locomotiva: ora eu descansava minha cabeça na janela fria, ora eu a repousava em seus ombros macios.
De olhos fechados e olfato mais aguçado, fiquei embriagado pelo perfume de sua pele, que de tão envolvente me fez delirar, imaginar nós dois juntos de um jeito quase proibido, em um lugar escondido, desconhecido.
Um movimento de sua parte espantou meus devaneios, me endireitei no banco instantaneamente, já sentindo o peso da amargura apertar meu peito. Pelo canto dos olhos vi seu rosto de perfil, sereno. Tive vontade de tocá-lo, mas forcei-me a encarar a escuridão lá fora. Lutei contra os trancos fortes que meu coração dava, lutei contra as lágrimas que se acumulavam em meus olhos, lutei.
Lutei inutilmente.